sexta-feira, fevereiro 01, 2013

O Mundo às avessas


Faz-me pena o esforço inglório de tanta gente bem-intencionada, que se esfalfa a discutir os pormenores da crise que avassala o mundo, em particular o nosso País, e a sugerir medidas, entre a excelência e o disparate, mas todas igualmente condenadas ao malogro.
O grande problema, o verdadeiro problema, não se trata de desequilíbrios pontuais, de erros isolados, de carências específicas. O problema é que o mundo, no seu todo, ESTÁ AO AVESSO.
Nos livros, nos princípios, nas constituições, há uma prioridade de valores e interesses hierarquizados, que fundamentam as opções e linhas estratégicas – tudo se inverteu.
Aprendemos o que parecia óbvio, na escala de valores:
1 – O que conta são as pessoas
2 – A economia é o conjunto de acções e directrizes que controlam a produção, distribuição e utilização de bens e serviços, em benefício dessas mesmas pessoas.
3 – O dinheiro é um instrumento criado para servir a economia, servindo como referência e padrão.
Bem… isso era dantes! Tudo agora se inverteu:
1 – “O que conta são os resultados”, ou seja… o dinheiro.
2 – A Economia é hoje um mero instrumento ao serviço dos imperativos genéticos do dinheiro – reproduzir-se e concentrar-se.
3 – As pessoas são hoje simples peões da Economia, usadas para produzir ou consumir consoante as prioridades e interesses do dinheiro, numa ou noutra actividade facilmente descartáveis através do desemprego ou dos cortes de rendimentos.
Não faz, por isso, qualquer sentido questionar a acção de governos que nada mandam, obrigados a obedecer a troikas, que por sua vez, nada mais são do que outras serventuárias do todo-poderoso dinheiro, embora a um nível hierárquico superior aos governos.
Por isso as políticas são, naturalmente, o inverso do que os valores originais, ainda na cabeça da maioria das pessoas, aconselharia.
Há um problema do mundo, fruto do desequilíbrio financeiro gerado pelo descontrole na multiplicação do dinheiro. Esse desequilíbrio ameaça a economia. Solução?
As pessoas não comem notas ou moedas, e, por isso, a lógica apontaria para uma pressão sobre o universo financeiro para se autocontrolar e corrigir os desequilíbrios, preservando o mais possível as economias. O que se faz, de facto?
Exactamente o contrário - pressionar e esmagar a economia, para suprir e compensar os erros financeiros. Alguém acredita que isso seja solução?
Compara-se a dívida do Estado com o Produto Nacional Bruto, para verificar a sua solvabilidade. Tecnicamente correcto, mas… e o resto? O PNB financia o Estado mas também o Povo, as suas actividades, os seus negócios, os seus créditos. Alguém fez contas para saber quantas décadas levaria o PNB a pagar a “Dívida Nacional Bruta”?
Alguém imagina que o “Produto Mundial Bruto” chega para pagar uma fracção significativa dos juros da “Dívida Mundial Bruta”?
Ninguém perde tempo a reflectir que esta coisa dos créditos gigantescos não passa dum utópico artifício de antecipação do consumo dum futuro que é cada vez menos provável virmos a ter?
Ninguém se apercebe que o simples dilema “OU O HOMEM DOMINA E CONTROLA O DINHEIRO, OU O DINHEIRO DESTRÓI A HUMANIDADE” é o verdadeiro problema, tornado ÚNICO pela sua universal dimensão?
Alguém se preocupa com o facto da sociedade de consumo estar ao serviço do dinheiro e não do homem, tendendo, em caso de sucesso absoluto, a tornar o Mundo num planeta inabitável, com cifras gigantescas de inútil dinheiro numa qualquer rede de computadores, oficialmente num também inabitável “paraíso fiscal?”
Quando a sociedade de consumo corre mal gera o problema que vivemos. E se correr bem?
Imagine-se um cenário idílico em que tudo corre bem, todos progridem e enriquecem, Europa e América são ricos, China continua a crescer na base dos dois dígitos, Brasil, India e outros tornam-se potências mundiais e grandes consumidores, e até os países hoje esfomeados e em guerra se pacificam e progridem. O que aconteceria ao mundo?
Alguém acredita que seria habitável? Com o esgotar dos recursos, e o crescimento exponencial das barbaridades ecológicas, já hoje, apesar de cuidadosamente escondidas, a matar milhões, alguém sobreviveria?
A lógica consumista é possível para alguns à custa dos outros, mas é inviável para todos, tornando uma perigosa mentira os aparentes fundamentos éticos da globalização.
Então o que esperam os líderes do mundo para começar a conceber a sociedade pós-consumismo, a única que permite sonhar a sobrevivência humana?
Como se pode aceitar os hossanas que continuam a cantar-se à sociedade de consumo, que objectivamente se limita a juntar o inútil ao desagradável (torna as pessoas infelizes, enquanto destrói o planeta)?
Como se pode explicar o silêncio em torno da flagrante correspondência inversa entre o crescimento do consumismo e dos níveis de felicidade, sem reconhecer a bajulação a sua excelência o dinheiro?
CHEGA DE PORMENORES. VAMOS AOS PORMAIORES.
PS –Acabei este texto ao som da televisão, que anunciava mais uma greve nos transportes. Está certo. Num mundo às avessas o sindicalismo não fez mais do que adaptar-se, e funcionar… às avessas.
Agora a greve já não é um instrumento de defesa do trabalho face ao capital, mas entrou na onda – facilitar a acumulação do dinheiro.
Entende-se, por isso, que alguns privilegiados pressionem o Estado a manter-lhes ou reforçar-lhes os privilégios, através duma luta em que a vítima é o Povo, o tal Povo que, embora ninguém confesse, deixou de contar.

quinta-feira, janeiro 31, 2013

Kaninchen's Kampft


“Geld ubber alles”.

A economia, como instrumento ao serviço do Geld, usa, nos seus processos correntes, um ingrediente chamado Pessoas.

Os Pessoas são uma fauna complexa e manipulável, usada para processar toda a espécie de materiais de que a economia se socorre para multiplicar e concentrar o Geld. Têm a vantagem da versatilidade – processam tudo com eficiência – mas têm a desvantagem de se desgastar com o uso, reduzindo bastante a sua utilidade a partir dos 50 anos de utilização.

Dada a facilidade com que se reproduzem, é hoje possível uma acção selectiva, eliminando os excedentes.

Segmentando a espécie Pessoas podemos dividi-los em três categorias:

       Crianças
       Adultos
       Velhos

Os únicos verdadeiramente importantes para o serviço do Geld são os Adultos, usados na produção e outras formas de multiplicação do Geld, mas o grupo Crianças é também interessante, não só como investimento – serão os Adultos de amanhã – mas porque são facilmente usados na manipulação dos Adultos para o consumo, dados os laços afectivos que, estranhamente, conseguem com eles estabelecer.

O verdadeiro problema para resolver são os Velhos. Descartados do processo económico, não só consomem pouco, como reflectem muito, criando, frequentemente, entropia no grupo dos Adultos já de si difícil de conduzir em múltiplas circunstâncias.

A extinção do grupo Velhos, ou a sua redução a um valor residual, é, assim, um importante objectivo de gestão, e um estratégico serviço que o Geld, seguramente, não deixará de reconhecer (com um bom emprego futuro, espero, pois a atribuição de bónus, embora mais prática e imediata, poderia levantar outros problemas).

Qual a metodologia a empregar?

1 - Segmentação

Os Velhos dividem-se em dois grandes grupos – o Maioritário, que se encontra abaixo do limiar de sobrevivência, e o Minoritário, situado acima desse patamar.

2 – Acção para o extermínio do grupo Maioritário

a) Restringir o acesso aos cuidados de saúde
b) Aumentar os custos da alimentação e energia
c) Congelar as fontes de rendimento (pensões)
d) Aguardar que a natureza faça o resto

3 – Acção para o extermínio do grupo Minoritário
a) Usar o almofariz do orçamento do Estado para esmagar o mais possível a margem que os coloca acima do limiar de sobrevivência
b) Aplicar a metodologia 1

NOTA – Dado o elevado número de velhos deve o Ministério da Ciência e Tecnologia entregar a uma universidade o estudo de alternativas aos dispendiosos funerais, se possível encontrando soluções que permitam reciclar os Velhos, talvez como rações para animais, ou qualquer outra solução rentável para o nosso líder.

Heil Geld!

terça-feira, dezembro 04, 2012

Às armas, credores de 3ª

Fiquei em pânico quando ouvi na TV que o Estado está nas mãos dos credores. Agora que as manifs começaram a espatifar, eu, que sou credor do Estado, receei que uma das próximas viesse ameaçar a minha marquise, acabada de fechar a um preço que nem vos digo.
Tenham lá calma! Há credores e… credores.

Os credores do Estado dividem-se em 3 categorias:

Credores de 1ª – Os agiotas

Estrangeiros, apenas interessados em obter os juros que lá na terrinha não conseguem, sob o disfarce duma ajudinha.

Credores de 2ª  – Os desprezados

Aforradores nacionais, dispostos a ajudar o Estado em condições mais favoráveis que as dos agiotas, mas a que o Estado não liga pois o dinheiro lá de fora é que é bom.

Credores de 3ª  – Os lixados

Cidadãos no ocaso da vida que acreditaram quo o Estado era pessoa de bem, e lhe confiaram parte dos seus rendimentos do trabalho, para o receberem de volta mais tarde.

Portanto, senhores manifeiros, prestem muita atenção: Quem tem o Estado na mão são os credores de 1ª, os de 3ª estão mas é na na mão do Estado.

E se tentássemos sair? Às armas, credores de 3ª!
Para já para proteger as marquises, e, mesmo que no futuro não venham a ser precisas para correr com os agiotas, sempre soa a patriotismo, e… quem sabe?

quarta-feira, novembro 28, 2012

Igreja revisitada


Devo confessar que depois de terem sido o epicentro de muitos dos meus temores a ansiedades durante a juventude, as igrejas são hoje um lugar onde ainda entro com respeito e contenção, mas fundamentalmente numa perspectiva turística. No entanto, sempre que as vicissitudes da vida me lá conduzem, para acompanhar casamentos, baptizados ou funerais, não deixo de dedicar às práticas a que assisto a maior atenção.
Confirmando o conservadorismo que é timbre da instituição, muito pouca coisa muda entre cada visita, cingindo-se as mudanças quase exclusivamente às cantigas necessariamente mal cantadas.
Voltei para um funeral com missa. Sabendo que razões higiénicas tinham levado a convidar os fiéis a abandonar a tradição de beijar o pé do simpático bonequinho a que chamam “O menino Jesus”, e depois do meu padeiro passar a ser obrigado a embrulhar a mão em plástico para me vender as carcaças, tinha a curiosidade de verificar se a ASAE não teria exigido aos párocos que fizessem o mesmo para distribuir a comunhão. Não senhor, o respeito é muito bonito, e micróbio de padre é muito mais santo que micróbio de padeiro. Ainda bem!
Uma coisa me baralhou – uma oração dizia: “recebei as suas almas, e levai-as à presença do Senhor”. Pensava eu que as orações se dirigiam directamente ao Senhor, mas, não, parece haver um intermediário. Tenho que voltar ao catecismo!

sexta-feira, outubro 26, 2012

O privado é que é bom

Nos remotos anos de 1973, estava eu e companheiros numa operação de 6 dias nas matas do Zaire, quando recebi uma mensagem para parar com a guerra, pois motivos urgentíssimos impunham o meu regresso imediato ao quartel.

Cumpri, e ainda bem – tinha vindo um recibo de 16$00 (8 cêntimos, que na altura era dinheiro, dava para comprar quase 4 litros de gasolina), relativo a um serviço que eu fizera ano e meio antes, e, se eu não voltasse a tempo de o assinar antes do MVL, já iria chegar a Luanda na semana seguinte, imaginem!

Alguém mais crítico (não o meu pessoal, que aceitou sem protestos regressar do mato), aproveitou para censurar a burocracia do Estado, achando ridícula uma situação que, no sector privado, nunca poderia acontecer. Claro que não.

Vejam o contraste:

Este verão, a minha mulher fez, de Espanha, uma chamada num telemóvel pré-pago da Vodafone.

Em Setembro recebi uma carta da companhia a debitar 50 cêntimos de roaming.

Faz sentido: um ou mais funcionários para emitir a factura, a meter num envelope que mesmo com selo talvez não chegue a custar os 50 cêntimos, e eu lá me confrontei com os códigos para pagar os 0.50€ no homebanking.

Verifiquei os saldos (graças a Deus chegava) e cumpridor que sou, procedi ao pagamento.

Fiquei ansioso, mas sem razão: outra carta que acabo de receber da Vodafone trouxe-me o recibo dos 0.50€, garantindo que tudo está bem quando acaba bem.

Mas... quando é que o estado começa a aprender com os bons exemplos dos privados?



sexta-feira, fevereiro 24, 2012

Irmãos querem casar - Ajudem

A Alice casou com a Beatriz. Foram viver para uma casa grande o que lhes permitiu ter quartos separados, e como o casamento foi de conveniência, exatamente por causa do aluguer, o Carlos, namorado da Alice foi viver com ela, rapidamente imitado pelo Daniel, namorado da Beatriz. Correu bem!
O Carlos e a Alice foram pais do Eduardo, quase ao mesmo tempo que o Daniel e a Beatriz tinham a Fátima.
Muito amigos, passam o tempo, divertidos a discutir o parentesco das famílias. Como será?
O Eduardo tem uma mãe (Alice), um pai (Carlos) e… mais quê? A Beatriz, casada com a mãe, é uma segunda mãe… um segundo pai… ou quê?

A Fátima, nascida na vigência do mesmo casamento em que nasceu o Eduardo é irmã dele, claro!
Riam-se, riam-se! O problema é que os garotos vão crescendo, e gostando tanto um do outro, o desfecho está à vista, mas… que horror! Casamento entre irmãos?

As mães já admitem divorciar-se, mas… será que ajuda?
URGENTE! QUEM SOUBER QUE RESPONDA.

sexta-feira, novembro 18, 2011

Reduzir salários?


Mas onde raio é que os Troikos jantaram? 

É que a hipótese de um jantar bem regado é a melhor forma de explicar a loucura da proposta de  cortes políticos nos salários privados.

(Finalmente um assunto em que estou à vontade para comentar, livre do condicionamento habitual de toda a gente considerar os cortes que lhe mordam no bolso como os mais injustos e não prioritários. Não recebo salários privados – nem outros)

O corte proposto teria o condão de juntar o inútil da redução das receitas fiscais (fala-se em 2000 milhões) com o desagradável de acentuar a já grave recessão.

Compreende-se a intenção – tornar a economia mais competitiva – mas não será por aí.

A verdade é que as leis do mercado, provavelmente, irão mesmo forçar essa redução sem envolvimento administrativo, pois basta a lei da oferta e da procura, no actual quadro de alto desemprego e baixo investimento, para qualquer gestão de recursos humanos minimamente competente baixar (ou manter, o que em ambiente inflacionário é a mesma coisa) os custos com pessoal.

Tratem de alterar as leis do trabalho, no sentido de flexibilizar o emprego, de reforçar a responsabilidade social e o acesso ao crédito para as empresas, e de credibilizar a justiça, e deixem o País trabalhar.

Em 2008 tive o atrevimento de sugerir 10 “medidas loucas” para a recuperação económica. Estamos mais perto... mas mais pobres e limitados. Um destes dias recupero e actualizo essas medidas, mas, entretanto, elas ainda estão disponíveis lá para trás, em "Floresta devastada" e "As árvores que tapam a floresta" continuam a ser cortadas!